A Família como Célula da Sociedade: Repetindo Contradições ou Criando Autonomia?

Muitas vezes vemos a família como um refúgio isolado, mas a Psicologia Histórico-Cultural nos ensina a desnaturalizar essa ideia. Como instituição histórica, a família atua na reprodução da força de trabalho e na manutenção da ideologia capitalista. Neste artigo, exploramos como o cansaço e os conflitos domésticos são, na verdade, sintomas de uma estrutura sobrecarregada por exigências econômicas. Continue a reflexão lendo a publicação na integra.

2/12/20262 min read

É comum pensarmos na família como um "ninho" ou um refúgio afetivo isolado do mundo exterior. No entanto, para compreendermos os conflitos que ocorrem dentro de casa, precisamos desnaturalizar essa ideia. A família não é uma estrutura imutável, mas uma instituição histórica que cumpre uma função política e econômica central: ela é uma das estruturas que sustenta o funcionamento do sistema capitalista.

A Família como Mantenedora do Capital

Longe de ser apenas um espaço de cuidado, a família opera como a unidade básica de reprodução da força de trabalho. Para que o sistema produza lucro, ele precisa que o trabalhador se apresente ao posto de trabalho todos os dias. É no ambiente doméstico que ocorre o trabalho de alimentação, higiene, descanso e suporte emocional — atividades muitas vezes invisibilizadas, não remuneradas e executada por mulheres, que garantem que a "mercadoria" força de trabalho esteja pronta para ser explorada novamente.

Além disso, a família é responsável pela reprodução física da classe trabalhadora (os novos trabalhadores) e, nas camadas dominantes, pela preservação da propriedade privada através da herança. Portanto, as tensões que você vive em casa não são apenas "problemas de convivência"; elas são o resultado de uma instituição sobrecarregada por exigências econômicas e sociais que visam manter a ordem vigente.

O Drama Familiar: Quando a Ideologia Toma Assento à Mesa

A família é a principal mediadora da ideologia. O que chamamos de drama é a personificação das contradições sociais no íntimo do sujeito, de forma dialética. O machismo, a hierarquia e a competitividade não entram na família por acaso; eles são necessários para que os indivíduos sejam socializados dentro da lógica de dominação e subordinação.

Nesse sentido, o drama familiar é um microcosmo do drama social. As dificuldades de comunicação entre um casal ou a rebeldia de um filho são formas concretas pelas quais as pressões por produtividade, a precariedade da vida e das relações, e as opressões de gênero se manifestam. A família "traduz" as necessidades do capital para a linguagem dos afetos, muitas vezes transformando pressões sistêmicas em sintomas psíquicos individuais.

Da Reprodução à Autonomia Real

Se a família é uma instituição que sustenta o funcionamento do capital, a busca por autonomia passa, obrigatoriamente, pela tomada de consciência dessas determinações. Não se trata apenas de "ajustar" as relações para que elas sejam menos dolorosas, mas de identificar como a exploração do homem pelo homem precariza nossos vínculos.

Ao compreender que o cansaço, a culpa e a cobrança excessiva têm raízes na forma como a nossa sociedade organiza a sobrevivência, abrimos espaço para construir relações baseadas na solidariedade e não na utilidade. O horizonte da clínica e da formação humana devem ser de refletir e elaborar formas de ação autodeterminadas, de acordo com o conhecimento de como essa estrutura institucional opera.

Referências Teóricas:

Engels, F. (1984). A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Federici, S. (2019). O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. São Paulo: Elefante.

Leontiev, A. (2004). O desenvolvimento do psiquismo (R. E. Frias, Trad.; 2ª ed.). Centauro.