Esgotamento e alienação: burnout enquanto síntese do trabalho apropriado pelo capitalismo
Você já se sentiu completamente esgotado pelo trabalho, não apenas fisicamente, mas com uma profunda sensação de vazio e falta de sentido? Já se perguntou por que a segunda-feira parece tão pesada e o domingo à noite é tomado por uma angústia inexplicável? Esse sentimento, frequentemente rotulado como burnout ou estresse, é uma queixa cada vez mais comum em nossa sociedade. Para saber mais, confira o texto na integra.
10/17/20255 min read
Esgotamento e alienação: burnout enquanto síntese do trabalho apropriado pelo capitalismo
Você já se sentiu completamente esgotado pelo trabalho, não apenas fisicamente, mas com uma profunda sensação de vazio e falta de sentido? Já se perguntou por que a segunda-feira parece tão pesada e o domingo à noite é tomado por uma angústia inexplicável? Esse sentimento, frequentemente rotulado como burnout ou estresse, é uma queixa cada vez mais comum em nossa sociedade.
A resposta padrão para esse sofrimento costuma ser individual: "você precisa gerenciar melhor seu estresse", "encontre um hobby", "seja mais resiliente". No entanto, na Psicologia Histórico-Cultural, partimos de uma premissa diferente. E se esse esgotamento não for uma falha sua, mas um sintoma de uma relação doente com o próprio trabalho? E se o seu sofrimento individual for, na verdade, um reflexo de uma sociedade que nos adoece?
Neste texto, vamos reposicionar a discussão. Em vez de tratar o esgotamento como um problema de gestão pessoal, vamos entendê-lo como uma expressão da alienação, um conceito fundamental para analisar como o modo de produção capitalista afeta nossa saúde mental e nossa humanidade.
Não é Você, é o Trabalho: Validando o Sofrimento
A sensação de que seu trabalho não tem propósito, de que você é apenas uma peça em uma engrenagem que não controla, é real e válida. O que você sente não é um sinal de fraqueza, mas uma resposta humana a um processo de desumanização.
No sistema capitalista, o trabalho, que deveria ser a atividade central de transformação do mundo e de realização do potencial humano, converte-se em "trabalho assalariado, alienado, fetichizado". Ele deixa de ser um fim em si mesmo — uma fonte de criação e satisfação — para se tornar apenas um meio para outro fim: a subsistência. Karl Marx descreveu esse processo como alienação, uma experiência de estranhamento que se manifesta em múltiplas dimensões:
Você se sente distante do que produz: O produto do seu trabalho não lhe pertence. Ele se opõe a você "como um ser alienado, como uma força independente do produtor". Seja um relatório, um software ou um produto físico, ele parece ter uma vida própria, e sua conexão com ele se resume a uma obrigação.
A própria atividade de trabalhar é estranha: O trabalho não é voluntário ou criativo; é forçado. Ele se torna um "trabalho de sacrifício próprio, de mortificação". Você não se pertence durante o expediente; pertence a outra pessoa ou empresa. Essa falta de controle sobre sua própria atividade é profundamente desgastante.
Você se sente desconectado dos outros: A lógica da produtividade e da competição muitas vezes nos coloca uns contra os outros. A consequência imediata do trabalho alienado é a "alienação do homem a respeito do homem". Em vez de colaboração e solidariedade, o ambiente de trabalho fomenta o isolamento e a desconfiança, tornando-nos "inimigos dele mesmo" e de nossos pares.
Você se sente alheio à sua própria humanidade: O trabalho alienado nos impede de realizar nosso potencial criativo e intelectual. Ele "faz estranhos ao homem seu próprio corpo, a natureza fora dele, sua essência espiritual, sua essência humana". Somos reduzidos a uma força de trabalho, uma mercadoria, e essa redução é a fonte de um profundo sentimento de vazio.
Quando olhamos por essa ótica, o esgotamento deixa de ser um mero "excesso de trabalho". Ele é a consequência lógica e dolorosa de um processo que nos esvazia de sentido, controle e conexão humana. Não é você que está quebrado; é a sua relação com um trabalho que te esvazia de humanidade.
Alienação como Categoria de Análise Clínica
Para profissionais da psicologia e da saúde, compreender a categoria da alienação, desenvolvida por Marx, oferece uma ferramenta de análise clínica potente para entender as queixas contemporâneas ligadas ao trabalho. Em vez de focar apenas nos sintomas (ansiedade, desânimo, insônia), podemos investigar a gênese social do sofrimento.
O trabalho clínico, a partir dos fundamentos da Psicologia Histórico-Cultural, busca desvendar como as determinações sociais se manifestam na singularidade do indivíduo. A análise da alienação nos permite ir além do diagnóstico superficial e compreender a estrutura do sofrimento:
Alienação do produto: Manifesta-se em falas como "Não vejo sentido no que eu faço" ou "Meu trabalho não serve para nada". O indivíduo não reconhece o valor de uso social de sua atividade, apenas o valor de troca (seu salário).
Alienação da atividade: Aparece em queixas sobre a falta de autonomia, controle excessivo, metas inatingíveis e ritmo intenso. O sujeito se sente um autômato, executando tarefas que não foram idealizadas por ele e sobre as quais não tem poder.
Alienação do ser genérico: Expressa-se na sensação de estagnação, de não estar utilizando suas verdadeiras capacidades. É a dor de sentir que a vida está sendo gasta em uma atividade que não enriquece o espírito, mas o empobrece.
Alienação dos outros: Surge na queixa de solidão, competitividade, falta de apoio e, em casos extremos, em situações de assédio moral, que são uma síntese perversa da gestão do trabalho na acumulação flexível.
As transformações recentes no mundo do trabalho, como a flexibilização, a "empresa enxuta" e a ideologia do "empreendedorismo", intensificaram a exploração e a precarização, aprofundando o processo de alienação. Nesse contexto, a função da psicoterapia não é "ajustar" o indivíduo a um sistema adoecedor, mas sim fornecer-lhe os instrumentos para que ele desenvolva uma consciência crítica sobre sua condição. Trata-se de compreender a natureza social e histórica de seu sofrimento, rompendo com a culpa e a auto-responsabilização.
Da Consciência à Ação: O Papel da Psicoterapia Histórico-Cultural
O esgotamento e o sofrimento psíquico no trabalho não são um destino inevitável, nem uma falha pessoal. São produtos de relações sociais concretas que podem e devem ser transformadas.
A psicoterapia orientada pela Psicologia Histórico-Cultural tem como um de seus objetivos refletir sobre as raízes da alienação. Ao compreende-las e ao compartilhar suas dores, o sujeito pode sair de um estado de padecimento e culpabilização individual, se sentir mais potente e torna-se mais ativo nas circunstancias de sua própria vida.
Para quem sofre, isso significa encontrar um espaço de acolhimento onde sua dor é legitimar e compreendida em sua totalidade, conectando sua história de vida singular às determinações universais de nossa sociedade. Para o profissional, significa assumir um compromisso ético-político de não reproduzir a lógica individualizante e culpabilizadora, mas de atuar como um mediador no processo de emancipação humana.
Se você se identifica com essa sensação de esgotamento e falta de sentido, ou se é um profissional em busca de ferramentas teóricas e metodológicas rigorosas para lidar com as demandas do nosso tempo, saiba que existe um caminho para além da adaptação. É o caminho da consciência, da crítica e da transformação.
Referência:
Tuleski, S. C., Franco, A. de F., & Calve, T. M. (Orgs.). (2020). Materialismo Histórico-Dialético e Psicologia Histórico-Cultural: Expressões da Luta de Classes no Interior do Capitalismo. EduFatecie Editora.
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