Este Corpo Não é Meu: Como a Vida Social Escreve Suas Regras na Nossa Carne
Este texto discute o corpo a partir da Psicologia Histórico-Cultural, compreendendo-o como uma construção histórico-social e não apenas biológica. A análise aborda como normas de gênero, relações de trabalho e expectativas culturais se inscrevem na materialidade do corpo, influenciando a forma como os sujeitos se percebem e vivenciam o próprio sofrimento. A partir da experiência trans, o artigo problematiza a leitura individualizante da dor psíquica e corporal, evidenciando o conflito entre categorias sociais rígidas e a subjetividade. Também apresenta a noção de unidade entre psíquico e somático, destacando implicações clínicas de uma compreensão que integra corpo, cultura e história. Temas centrais: corpo e cultura, Psicologia Histórico-Cultural, gênero, sofrimento psíquico, unidade mente-corpo, clínica psicológica.
2/5/20262 min read
Muitas vezes, ao acordarmos e nos olharmos no espelho, sentimos que o reflexo não nos pertence. Essa sensação de estranhamento pode aparecer como uma luta constante com o peso, um cansaço que o sono não resolve ou, de modo mais profundo, na percepção de que as formas e funções do nosso corpo não correspondem a quem somos.
Se você sente que seu corpo é um território de disputa, saiba: isso não é apenas uma questão pessoal ou biológica — é um processo histórico e social.
O corpo além da biologia
Diferentemente de outros animais, cujos comportamentos são majoritariamente regidos por instintos, nós somos constituídos pela cultura. Isso significa que o corpo humano não é apenas um conjunto de órgãos, tecidos e hormônios; ele é a materialidade onde a vida social inscreve suas regras.
Desde o nascimento, aprendemos normas sobre como cada corpo deve se comportar, qual estética deve assumir e qual papel deve cumprir na produção da vida. Essas normas são tão profundamente internalizadas que passamos a vivê-las como se fossem “naturais”. No entanto, aquilo que chamamos de “natural” é, muitas vezes, o resultado de séculos de disciplina social voltada ao trabalho, à reprodução e à manutenção de padrões de gênero.
A vivência transgênero e a inscrição social
Quando falamos de trangeneralidade, essa discussão ganha uma dimensão urgente. O sofrimento ético-político de pessoas trans é frequentemente interpretado pela medicina tradicional como uma “disfunção” individual. Na perspectiva que adotamos, porém, o sofrimento emerge da contradição entre categorias sociais de gênero — que são construções históricas — e a subjetividade do sujeito.
A sensação de que “este corpo não é meu” pode ser compreendida como expressão da rigidez do binarismo de gênero (masculino × feminino), socialmente produzido. A angústia não reside no corpo em si (nas manifestações orgânicas do sexo biológico), mas nos significados que a cultura lhe impõe — isto é, nas performances de gênero culturalmente associadas a essas manifestações.
As normas de gênero são inscritas na carne como se fossem verdades naturais e indiscutíveis. Quando o sujeito não se reconhece nelas, o corpo se converte em campo de batalha entre a imposição social e a necessidade de existir com autenticidade.
A unidade entre psíquico e somático
Superar a dicotomia mente-corpo é fundamental. As Funções Psicológicas Superiores possuem base biológica, mas sua organização é constituída nas relações sociais.
O somático (corpo) e o psíquico formam uma unidade dialética. Na clínica, isso significa que a queixa corporal — seja disforia, somatização ou esgotamento — não pode ser tratada como um evento isolado no organismo do paciente. É preciso analisar como condições de vida, trabalho e opressões estruturais constituem a relação do sujeito com sua própria carne, suas necessidades, motivações e vivências.
Atuar clinicamente a partir da Psicologia Histórico-Cultural implica ajudar o indivíduo a compreender a gênese social de seu sofrimento, ressignificar a ideia de “culpa individual” e construir, de forma criativa, modos de vida mais autênticos e autodeterminados.
Referências:
VIGOTSKI, L. S. Obras Escolhidas - Tomo V: Fundamentos de Defectologia.
LEONTIEV, A. N. O Desenvolvimento do Psiquismo.
Segundo Ato
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