Liberdade Não é Fazer o que Quer: A Conquista da Autodeterminação em um Mundo de Carências
Muitos de nós associamos a ideia de liberdade à possibilidade de "fazer o que queremos, quando queremos". Para a Psicologia Histórico-Cultural, fundamentada nas propostas de Vigotski e no materialismo de Marx e Engels, a liberdade assume um significado muito diferente e mais potente. Ela não é a ausência de limites ou determinantes. Pelo contrário, a verdadeira liberdade é a consciência das necessidades e dos determinantes e, a partir dessa consciência, a capacidade de agir coletiva e individualmente para transformá-los. Saiba mais lendo o texto na integra.
11/14/20253 min read
Muitos de nós associamos a ideia de liberdade à possibilidade de "fazer o que queremos, quando queremos". Crescemos ouvindo que o livre-arbítrio é a capacidade de fazer escolhas sem restrições. No entanto, a experiência cotidiana frequentemente nos frustra. Sentimo-nos limitados por demandas financeiras, obrigações de trabalho, expectativas sociais e até mesmo por nossas próprias emoções e hábitos, que parecem difíceis de controlar.
Essa frustração é um sintoma da desconexão entre a noção liberal de "livre-arbítrio" e a realidade material em que vivemos.
Para a Psicologia Histórico-Cultural, fundamentada nas propostas de Vigotski e no materialismo de Marx e Engels, a liberdade assume um significado muito diferente e mais potente. Ela não é a ausência de limites ou determinantes. Pelo contrário, a verdadeira liberdade é a consciência das necessidades e dos determinantes e, a partir dessa consciência, a capacidade de agir coletiva e individualmente para transformá-los.
O Sentimento de "Estar Preso" e o Caminho para a Consciência
É comum nos sentirmos "presos" ou paralisados diante da vida. Sentimos que estamos apenas reagindo aos eventos, presos em padrões que nos fazem sofrer, mas que não conseguimos mudar. Podemos nos sentir presos em um emprego que detestamos por causa das contas a pagar, ou em dinâmicas de relacionamento que se repetem, mesmo que queiramos agir de forma diferente.
Esse sentimento de estar "preso", ansioso ou impotente não é um fracasso pessoal. Na verdade, é um momento crucial. É o primeiro indício de que estamos sendo determinados por circunstâncias (sociais, econômicas, históricas) que ainda não compreendemos totalmente. Assim, atribuímos a nós mesmos ou a um outro toda a responsabilidade da situação, sem entender o que podemos fazer para transformar essas condições.
A liberdade, nesse contexto, não significa escapar magicamente das contas ou das relações complexas da vida. Ela começa quando somos capazes de compreender aquilo que nos determina e as leis que regem essas determinações, para então podermos transformá-las a partir da própria lógica que as constitui.
A psicoterapia, sob perspectiva Histórico-Cultural, é um dos caminhos para construir essa compreensão. O objetivo não é encontrar uma "força interior" abstrata, mas investigar concretamente:
Quais são as condições reais da minha vida? (Trabalho, finanças, relações).
Quais necessidades (ou carências) estão sendo ou não atendidas?
Como as formas de organização social (a forma como o trabalho está dividido, as expectativas de gênero, as crises econômicas, o racismo vivenciado cotidianamente) afetam minhas escolhas e meu sofrimento?
Ao entender por que nos sentimos presos, ganhamos a capacidade de agir sobre esses limites. A liberdade não é a ausência de limites, mas a capacidade de agir sobre eles com consciência.
Liberdade e Necessidade: A Práxis na Autodeterminação
Para os profissionais e estudantes interessados no rigor teórico, a discussão se aprofunda na relação dialética entre liberdade e necessidade. Diferente do pensamento liberal, que vê liberdade e determinismo como opostos (ou somos livres, ou somos determinados), o materialismo histórico-dialético entende que eles são uma unidade inseparável.
Citando Engels, a liberdade é "a consciência da necessidade". Isso significa que só podemos ser livres em relação a algo que conhecemos. Não podemos ser "livres" da lei da gravidade; só podemos voar (construir um avião) porque compreendemos precisamente como a gravidade e a aerodinâmica (as necessidades, os determinantes) funcionam.
Trazendo para a psicologia, um indivíduo não é "livre" de seu passado, de sua classe social ou das contradições da sociedade capitalista. Esses são determinantes, que produzem necessidades específicas. O objetivo terapêutico na Psicologia Histórico-Cultural é auxiliar o indivíduo na transição de ser passivamente determinado pelas circunstâncias (quando a vida apenas "acontece" com ele) para a autodeterminação (quando ele compreende seus determinantes e pode agir ativamente sobre eles).
Essa ação transformadora, que une o pensamento (consciência dos determinantes) e a ação (transformação da realidade), é o que chamamos de práxis. O processo terapêutico e o conhecimento das leis que determinam o ser humano são, fundamentalmente, ferramentas para o desenvolvimento da práxis, permitindo aos sujeitos e à coletividade não apenas entender o mundo, mas agir para transformar a realidade.
A Conquista da Liberdade Real
A liberdade, portanto, não é um estado que se alcança e no qual se permanece, mas um processo contínuo e árduo de tomada de consciência e ação transformadora. Ela não está em "fazer o que se quer", mas em querer o que é humanamente necessário e agir conscientemente para construir as condições para o atendimento dessas necessidades.
Em nosso instituto, tanto a clínica de psicoterapia quanto o espaço formativo estão comprometidos com essa visão. A terapia busca auxiliar na compreensão das necessidades que nos movem e nos limitam, enquanto nossos cursos e supervisões visam fornecer aos profissionais as ferramentas teóricas e metodológicas para compreender e atuar sobre os determinantes do psiquismo.
Referências:
VIGOTSKI, L. S. (2000). Teoria e Método em Psicologia. São Paulo: Martins Fontes.
LEONTIEV, A. N. (1978). Atividade, Consciência e Personalidade.
MARX, K. & ENGELS, F. (2007). A Ideologia Alemã.
Segundo Ato
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